sábado, 11 de dezembro de 2010

Ano Novo


A coragem de mudar está representada em um texto que adoro e diz:

Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos

Para mim, as mudanças estão chegando e elas começam cedo. Como faço aniversário no segundo dia do ano, o primeiro dia de 2011 é na realidade, o último de 2010 . É como conto o meu tempo, os meus 365 dias de dias, noites, sol, chuva. Reclamava de aniversariar em janeiro. Presentes junto com os do Natal, festas sempre prejudicadas por causa de muitos amigos viajando. Coisas de criança (será?) . Quase todo o capricorniano que conheço reclama disso. Eu, reclamava. Hoje, comemoro sempre o fato de virar mais uma página, no meu calendário, de estar viva e poder sentir tristeza, medo, alegria, surpresa. Comemoro os amigos que estão perto ou longe, que reencontro a cada década ou que ainda vou reencontrar. Comemoro aqueles que vão chegar na minha vida e sobretudo me comemoro. Por que não? Da criança que fui, a mulher que me tornei, se passaram apenas alguns minutos. Se as pessoas que amo estão viajando, o fato de existirem é hoje o meu presente. Se a festa é só um bolinho porque o Natal já valeu a festança (vamos combinar que competir com Jesus é impossível) e o Ano Novo consumiu as energias de se brindar e se prometer um novo amor, a dieta, a viagem, o estudo e tudo mais que vem no pacote, não faz mal. O brinde é mesmo viver. O meu ano novo está chegando, junto com o seu. Hora de abrir os armários e fazer a limpeza. Hora de abrir a alma e jogar fora no lixo o que não serve mais. Não me serve aquela angústia, aquela briga, aquele momento “vergonha alheia” ou “vergonha de mim mesma”.Não me servem tantas coisas que devem ser deixadas para trás e não doadas. Doação só se faz de coisas das quais nos desapegamos, de que às vezes nos lembramos, que nos fizeram felizes, mas que merecem ir para outro que com certeza precisa mais.  Chegou a hora de abrir mesmo o coração e viver de verdade o ano novo. Acha difícil? Tem receita. A Receita de Ano Novo eu aprendi com  Carlos Drummond de Andrade e ela, linda que é,  termina assim:


“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

Para quem amo e me vê, para quem amo e não me vê, mas me conhece, e para aqueles que ainda vou amar, um 2011 maravilhoso.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sorrir

Trânsito horrível, humor péssimo, TPM total. Aqueles dias em que,  literalmente, se baterem você no liquidificado não vai dar nem  meio copo. E de repente, passa alguém e abre aquele sorriso, como se você com todas as suas “boas”  energias fosse um catalisador de algo positivo. Como se você fosse  aquele  ser humano zen,  que abraça árvores, conta estrelas e etc... O sorriso é algo que se recebe sem se questionar. Tem gente que sorri tanto, que a impressão que tenho é que tem mais dente do que boca. E daí? Melhor do que receber é retribuir. Sorrir faz bem, ainda mais quando vem de dentro. Sabe aquela gargalhada interior?  Chegar a gargalhar pode ser um pouco difícil... A questão não é saber se o mundo vale a pena. É fazer uma forcinha.  Não precisa sorrir  o tempo todo para que o outro  suponha que você é  feliz. Charlie Chaplin,  gênio que era, sabia do valor de um sorriso, de um esboço que fosse. Permita o momento. A gente só  precisa  começar  de algum  jeito  tentar ser feliz. Que tal esse? :0)
Com aquele sorriso, o meu dia ficou muito mais feliz!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

E se?...

"E se?"... Presente em todos os momentos. Nas certezas e incertezas, lá está ele a martelar nossa cabeça. "E se?" Olha ele de novo,  na fala de um filme, em um trecho de livro, na nossa existência. E se eu tivesse dito sim? E se eu tivesse dito não? E se eu tivesse saído com aquele cara? E se eu não tivesse saído?  E se eu tivesse aceitado aquela promoção? E se eu... Oportunidades, amores, amizades... Todos eles baseados no tal de "e  se...". Quando quebramos a cara e nos arrependemos, lá está ele firme e forte a nos angustiar. E se? E se? E se? E a gente insiste que se a opção fosse outra, a vida estaria um mar de rosas. O que sei, mesmo sem nada saber, é que se eu tivesse dito sim estaria me perguntado "e se" da mesma forma que se eu tivesse dito não. O "e se"  independe da opção. É um perseguidor daquelas coisas que queremos que sejam certas na nossa vida. Se algo muda, desvia do rumo, acontece como não sonhamos, precisamos de um culpado. Se recebemos uma crítica, um elogio mal construído nada mais perfeito que duas palavrinhas seguidas de um ponto bem grande de interrogação ou então de breves reticências.  "E se?". "E se...". Independente do nosso livre arbítrio o "e se" estará sempre a questionar nossas decisões. Tão nossas e tão erradamente acertadas. O "e se" é nosso arrependimento não assumido. Um arrependimento velado. Negar o "e se" é como negar que somos gente, planta, bicho ou seja lá o que você se sentir  nesse momento. A certeza é parceira do "e se?". Um não vive sem o outro, como o erro não vive sem o acerto e como nós não vivemos sem os dois.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A casa de Cora

Nesta semana, graças a paciência de dois amigos queridos, tive mais uma aula de como se colocam  portas, se levantam paredes, se constroem  pontes e como doces viram lembranças. Não estou fazendo  nenhum outro  curso, além daquele de me permitir viver.  Essa pequena aula eu tive em uma cidade conhecida por Goiás Velho, ao entrar por uma porta verde, em uma casa velha da ponte sobre um rio chamado Vermelho.  É que fui visitar Cora Coralina. A casa onde ela nasceu, viveu, partiu, retornou e partiu novamente. Pessoa linda, como tantas outras,cujas palavras me encantam. "Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema".  Aninha (sim seu nome era Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas), ou melhor Cora, me deixou visitá-la  e, por um momento, permitiu que sua casa real fosse um pouco minha. Como se colocam portas, se levantam paredes, se constroem  pontes? Saindo do aconchego do que  cremos ser verdadeiramente nossa casa e nos lançando pelo mundo para depois voltarmos para o que acreditamos ser nosso lar. Por isso, a importância de se aprender aos poucos o segredo da construção. Nosso lar pode ser em qualquer lugar. Nem sempre de onde saímos, mas com certeza, para onde retornamos. Quando respiramos um tempo que já passou, quando conhecemos de perto as opções de vida de pessoas tão iguais a nós no  existir, nos sentimos inspirados. Adoro Cora Coralina, porque na sua essência  humana, não teve medo de arriscar e começar, mesmo que tarde para alguns."Você acha que sou velha?" pergunta ela. Você era e é completamente jovem. "Tenho comigo todas as idades, estou vivendo o melhor tempo da minha vida....tempo em que tenho nada e que nada me falta...". Cora Coralina sabia que  nenhum bem material substitui o bem que se pode fazer com palavras, aprendidas também em um dicionário sempre sujo de melado. Não provei o doce de laranja  feito por ela, mas me permito saborear suas palavras toda vez  que a vida fica um pouco sombreada.  "Eu não digo nunca a palavra estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando esquecida, mais esquecida fica. Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então, silêncio!". Não precisa ir a Goiás Velho para estar na casa de Cora Coralina. Basta abrir um livro dela ou ler um texto onde quer que ele esteja. Ali, ao alcance dos olhos e das mãos,  está a  casa de Cora e é ali que aprendemos, um pouco, a abrir portas, ter paredes erguidas e atravessar pontes. A construir tudo isso, ainda estamos aprendendo, pelo menos no meu caso. 



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Grata pelo outro

Outro dia liguei para uma amiga minha para desejar Feliz Aniversário. Dessas amigas para quem eu ligo pelo menos uma vez por ano, que conheço desde a pré-história, mas que a vida levou por destinos diferentes. O incrível é que moramos na mesma cidade. Ao terminarmos nossa conversa ela disse “sou muito grata por você fazer parte da minha vida”. Gratidão mútua, que me deixou comovida. Não por ela ser uma dessas amigas que amamos sem nunca ver, porque em algum momento nos ajudou a sermos protagonistas da nossa existência, mas por ter esse sentimento de gratidão pelo outro. Ser grata pelo outro. Ser grata apenas pelo fato de que, em algum momento, o outro ter participado dessa pintura que é nossa vida. Obra de arte? Nem sempre. Às vezes, tão imperfeita que parece o contrário. Sem retoques, com manchas, sombras, luz e cor. Mas, com a contribuição desse outro que passou ou ficou, disse olá, adeus, te amo, te odeio, obrigada ou já vai tarde. De quem deu alegrias e também fez chorar. Ser grata pelo outro é permitir os altos e baixos. É admitir que nem tudo é fácil e que a graça reside aí. É abrir passagens para que  outros  outros venham e transformem nossa vida. Os antigos são sempre bem vindos. Ser grata ao outro é saber que existe alguém  que também nos ama sem ver,  porque fazemos ou fizermos parte de sua vida.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Desculpe por desejar bom dia

Outro dia estava atravessando a rua quando um senhor me disse “bom dia” para logo em seguida emendar, “desculpe, pensei que fosse outra pessoa”. O mundo anda tão caótico e as pessoas tão distantes uma das outras, que o fato de alguém se desculpar por desejar a você que o dia seja no mínimo razoável se transforma em um pedido de desculpa. Opssss, dei bom dia para a pessoa errada. E quem é afinal a pessoa certa? O conhecido ou o desconhecido? Estranho esse mundo. Acho que não deveríamos nos desculparmos por viver nele, nem por sermos educados e gentis. Não deveríamos ter vergonha de cumprimentar o outro, deveríamos ter vergonha de nós mesmos por não fazê-lo. Se a “tia” do maternal  nos visse agora, com certeza ficará chateada por termos esquecido lições tão básicas. O “bom dia” associado ao “com licença” e ao “muito obrigado” torna tudo um pouco melhor. Deixe-se confundir. Permita-se todos os dias se dirigir ao outro como se fosse um conhecido e lhe desejar um sonoro bom dia. Permita-se olhar ao redor. Seja educado com esse desconhecido chamado mundo e ele com certeza vai acabar retribuindo ao se tornar um lugar muito melhor. Ah, e antes que eu me esqueça: tenha um bom dia. Permita-se.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Polvo Paul e meu futuro

Morreu o polvo Paul. Repercussão total de pesar. Esse molusco marinho da classe Cephalopoda e da ordem Octopoda se tornou famoso por causa da Copa do Mundo. Oráculo. Acertava todas. A morte de Paul me fez pensar sobre futuro. Qual a graça de saber o futuro? A graça reside em se poder ganhar com ele por causa de um palpite acertado ou vivê-lo intensamente? Onde você estava há dez anos? Quais eram seus palpites? Ao andar para a esquerda ou para a direita parou na escolha certa? Houve uma época na minha vida que acreditava que segurança era não estar só. Em outro momento, um bom trabalho bastava. Direita, esquerda, meio. Palpites? Vários. Acertos? Alguns. Milhares de olhos ( no meu caso invisíveis) atentos às minhas escolhas. A família, os amigos da família, o conhecido da rua de cima, os desconhecidos... Um grupo e tanto de torcedores prós e contra. Ao refletir sobre Paul cheguei a uma conclusão: não sou um polvo em um aquário, mas sou um ser humano em constante exposição. Acima de tudo, sou o Oráculo de mim mesma, onde a probabilidade de erros e acertos são iguais. Errar ou acertar é  uma questão de se permitir.
Acho que vou mandar um telegrama para a  família de Paul.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sentar no chão e chorar

Não sei se você já sentiu aquela vontade de no meio de uma reunião, de uma edição de texto, de uma leitura de relatório, sentar no chão e chorar. Chorar mesmo,  como se fosse uma atriz de novela mexicana e tivesse perdido a pessoa mais querida do mundo. Nesses momentos, posso até correr o risco de perder o emprego, mas não estou perdendo ninguém. A única certeza que tenho é a de que estou recebendo uma visita. Que surpresa! Não é a TPM ( que pode ser pré, pós e durante). Quem chega é um cara que adora dizer “olá” de vez em quando chamado estresse. Conhece? Cara chato, mas inegavelmente um companheirão, que  tem o poder de me fazer sentar no chão e chorar. Sim, porque descabelada e com ar alucinado acho que já fico naturalmente com sua chegada.  Por isso, sempre tem aquela pessoa de bom coração que pergunta “ - tá tudo bem com você?”. Com certeza, já captou os primeiros sinais de insanidade e quer garantir que não vou atirar o celular, o grampeador  ou qualquer objeto nela. Pessoa simpática. Com certeza, o máximo que vai receber é um “tudo bem “ atravessado, mas, sem risco de vida. Sentar no chão e chorar. Depois, é só levantar e agir como se nada tivesse acontecido. Nariz vermelho? Pó nele! Quando sentir vontade, se permita. Eu atesto que sentar no chão e chorar dá tão certo como colocar uma vassoura atrás da porta quando recebemos visitas indesejáveis. Sabe aquele  amigão chato? Vai embora correndo da sua casa.  No meu caso, o já mais que chegado estresse.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Beijei um sapo.


Quantos sapos a gente não beija nessa nossa existência e quantos príncipes continuamos a esperar enquanto a ampulheta do tempo se esvai. Bonito, né? Mas, o sapo continua lá. Lembro que uma vez, em uma festa tinha um garoto lindo de morrer. De morrer mesmo, porque ele não podia sorrir porque faltava um dente. Tudo bem, defeito pequeno, fácil de consertar. Mas, eu não tinha tempo. Lembro também daquele liiiiiiiindo musculoso em sua moto e que um dia me aparece de bicicleta, sunga, camiseta regata, meia três quartos e chuteira. Pera aí? Ou ele nadava ou jogava futebol ou andava de bicicleta. E cadê a moto? Acho que foi em momentos como esses que constatei literalmente que as aparências enganam. E como. Não sei o que é pior, se sentir Cinderela ou querer ser ela lavando chão à espera do salvador. Haja escovão! Ou então ser Branca de Neve, morta em vida, à espera do beijo salvador. Vida engraçada essa de princesa, para não dizer sofrida. E viva a modernidade!. Se o tempo não pára, vamos correr com ele. O bom mesmo é acreditar e continuar tentando. Beijei um sapo e não me arrependo. Sapo era e sapo permaneceu. Com certeza, a sapa gêmea apareceu.

Chove

Chove.  A seca acabou, o verde voltou e a vida se lembra que é mesmo primavera. Alguns nem percebem a chuva, estão apressados , preocupados com a rotina, a política, a religião, a liquidação...São apenas pontos coloridos vistos do alto, de onde ela cai. Do profundo ao supérfluo estão todos  na mesma estação. Uns sofrem e outros amam. Amam o quentinho da cama, os pingos no rosto, o céu nublado e agradecem. Abençoados. Outros amam a água que cai na terra,  a plantação, a perspectiva de alimento na mesa e agradecem. Abençoados. A chuva pode ser  o aconchego ou a esperança, depende sempre do referencial. Pode ser a alegria ou a tragédia. Depende do momento, do lugar e do estar. Chove. Eu só posso agradecer por viver em um mundo em que a natureza se manifesta , hoje com alegria. Estou viva, diz ela. Você está?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Criança

Sinto saudades...
De todos os meus 12 de outubro e dos que ainda virão. Do privilégio de simplesmente ser. Da escola gigantesca para a visão do meu metro.   Dos presentes, brincadeiras, parquinhos, desenhos.. Sinto saudades do que vivi criança, da criança que sou e da que ainda  me permitirei ser. Sinto saudade do mundo cor-de-rosa e não globalizado.  Nessa brincadeira de esconde-esconde que é a vida, ainda bem  que  sei onde encontrá-la, principalmente no 12 de outubro. Dá licença, que vou  ver desenho.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um mais um

“Mãe sabe o que é o tempo? É um mais um , mais um, mais um, mais um”..... A pergunta, seguida da explicação, veio da minha filha quando ela tinha uns quatro anos. Um mais um. O tempo, como mexe com a gente, com o que somos e ainda vamos ser. Tenho uma colega que quer sempre ter vinte anos , outra se recusa tanto a mudar de idade  que já tive que ouvir coisas do tipo: nossa, se vocês estudaram juntas como ela consegue ser bem mais nova ? Só posso rir e responder: é superdotada! O medo de envelhecer, de que o um mais um chegue  de forma definitiva está sempre rondando. Creio que o tempo é uma dádiva, que com ele aprendemos,  quebramos a cara, mas estamos sempre caminhando, mesmo quando andamos em circulos somamos no um mais um. Viver um dia de cada vez é importante para mim. Sou viciada em viver e em tudo que vem junto, mas sei que um dia o meu relógio também vai parar. Enquanto isso estou no  um dia mais um dia. O verdadeiro relógio carrego dentro de mim. Não é aquele biológico, que marca o tempo em que devemos casar, ter filhos ou não , arrumar emprego, sair de casa, ser independente, acabar ou começar um relacionamento, conhecer o mundo, nos trancarmos no nosso mundo, querer colo ou não querer ninguém... . O meu relógio anda quando eu  permito, pára , adianta , me faz ser adolescente ou uma velha incorrigível. Se as marcas no rosto contam mesmo uma história, hoje em dia, com o botox, a plástica e os inúmeros tratamentos, ela está sempre querendo ser reinventada , reescrita, apagada. Mesmo assim, as marcas vão estar sempre ali como o menino e seus pregos (para quem não conhece, posso contar essa história) , mas a alma  estará sempre com a idade do tempo que nos permitirmos. Um mais um nem sempre são dois, mas para mim essa soma sempre será vida.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pausa

Quando era adolescente  fui assistir ao filme “ Irmão Sol, Irmão Lua”. São Francisco de Assis está mais na moda do que nunca e isso literalmente : ecológico e despojado, como diria uma amiga minha, direto da laje. Hoje, em um desses raros momentos em que nos permitimos pausas ( já dizia o poeta  que a vida precisa delas) pensei nessa pessoa que abre mão de tudo para seguir algo em que acredita. No caso, esse irmão Sol. Em que acreditamos hoje? No prêmio acumulado de 115 milhões de reais da Mega Sena? Que a mão coçando é presente na certa (como diz minha avó) ou uma micose (como vive dizendo minha filha)? Que o ideal é escalar pedras e se aventurar (convite de um filho destemido e natureba demais)? Como se despojar de roupas, de bens, como ter diante da vida uma atitude franciscana? Como sair do conforto do sofá velho e mudar? Como tirar essa segunda pele que gruda na gente e quanto mais o tempo passa, mais grudada ela fica com o nome de acomodação? Perguntas e mais perguntas. As pausas na vida são sempre reflexivas. E de repente alguém grita na redação. Aperto o play por algum tempo e depois volto a minha pausa, pois nela me encontro. No meu próprio céu, com sua lua e estrelas. No meu próprio sol, que ilumina quando a vida está tão difícil, que caímos no mais profundo do fundo do poço. Atitude! Coragem! É buscando nesse baú de memórias que percebo como é bom poder tentar tirar essa segunda pele. Como é bom poder lembrar do que um dia fomos e que ainda somos. Sou, na minha pausa, aquela adolescente encantada, sentada em uma sala de cinema vendo um história e pensando no que viria a seguir. O a seguir se foi , o cinema acabou, mas aquele momento ficou sem que eu nem percebesse. Me lembrei hoje, talvez porque seja  4 de outubro , de que  não somos santos e eu precise da lembrança  que,  apesar de  não sermos perfeitos,ainda podemos sê-lo. Acho que é uma questão de tentar e  se permitir. E olha que a minha pausa durou menos de dez minutos.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Fernando pessoa

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Perdas e achados

O pai de uma amiga  acaba de morrer. Dor imensa. E isso me remeteu  a todas as perdas que sofremos e do que elas nos fazem achar/encontrar. Foi na perda do meu pai, por exemplo, que achei o amor profundo que sentia por ele e que estava escondido em algum lugar. Foi enquanto  ele lutava contra um câncer, que eu descobri que o que eu acreditava serem defeitos eram  na realidade, as grandes qualidades. Um achado na minha perda. E ao longo de minha vida, assim como da sua ou de qualquer outra pessoa, a sucessão de perdas e achados são enormes. Não é um “achado e perdido” comum. Não é algo que se perde e se encontra com facilidade. Que alguém acha e devolve. Não existe uma sala ou um retorno pelo caminho para se encontrar. Não se pode olhar o chão, não é uma chave, mas é a chave. Não se recicla, mas, às vezes, é preciso revirar o lixo e mesmo assim, encontrar força para olhar para frente. Pelo menos, é assim que  penso. Muitas vezes, é algo que apenas está escondido sob a forma de raiva, impaciência, mágoa ou incompreensão. Sempre ganhamos algo nas nossas perdas. Às vezes, passamos a vida inteira tentando encontrar ou encontramos e nem percebemos. A fé é um dos maiores achados nas minhas perdas. É o que me move e me faz ter esperança. E esse é um achar que me permito não perder. E espero que esse achar esteja presente na vida dessa amiga querida.

“Eu parto com o ar – sacudo minha neve branca ao sol que foge
Desfaço minha carne em redemoinhos de espuma,
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que amo;
Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus pés.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo;
Não obstante serei para ti boa saúde
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se não conseguires encontrar-me, não desanimes;
O que não está numa parte esta noutra
Em algum lugar estarei a tua espera “
Walt Whitman

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Escolhas

Pensava sobre escolhas e quanto tempo elas refletem em nossa vida. Duram para sempre? São passageiras? Têm o ciclo de um mandato? Mandam na nossa existência? Colocam comida na nossa mesa? Nos tornam mais atraentes? Nos fazem mais feios? Mais tristes? Mais penalizados com o que somos? Ah, as escolhas. Não me arrependo de nenhuma. Aprendi com todas elas, até naqueles momentos em que simplesmente desistimos no último segundo. Se viver fosse fácil, acho que seria tão sem graça. Se as escolhas fossem sempre acertadas, também. É a chamada dor do crescimento, às vezes, dói só nos joelhos (segundo relato de uma amiga a quem vou dar um voto de confiança), outras, no corpo inteiro. Estamos todos os dias em tempo e momento de escolhas e de lamentos. Aquela pessoa que não beijei. Aquele emprego que não aceitei. Aquela história que não escrevi . Aquele momento que não me permiti. Escolhas. Estava aqui pensando sobre elas: as certas e as erradas que fazemos por aqui. Da política a vida pessoal .Às vezes, se as coisas não dão certo, Deus costuma ser responsabilizado. Bom, pelo menos no meu caso, porque conheço gente que adora abraçar árvores e que quando algo dá errado, culpa mesmo é a pobre da natureza porque é nela que acredita.. Sim ou não. Esse caminho ou aquele. Escolhas. Permita-se fazê-las e tenha uma lindo dia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ela chegou

 

Hoje recebi uma visita que gosta de ser itinerante. Ela não fica só na minha casa. Está em vários lugares ao mesmo tempo, com sua cara florida e ar de piquenique. Como consegue? Fonte de inspiração constante.De Vivaldi a Tchaikovsky passando por Beto Guedes e Tim Maia, ela cabe em todos os ritmos. Como consegue ser tão linda? Sempre critico  os excessos e nela, ah nela,  tudo é absolutamente excessivo, a começar pelas cores. Só que nesse caso, não cabe crítica. Ela pode abusar do batom vermelho e da sombra azul. Quem se importa? Por enquanto, essa minha e sua prima está por aqui, para  lembrar que, às vezes,  se chega também de mala e flores. Talvez por isso, seja tempo de se permitir florescer. A Primavera chegou hoje aos nove minutos. Seja bem vinda. Até dezembro, quando chegar aquele  cara quente, a gente se renova.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O lado Pollyanna e a brisa

 
Ontem à noite, quando sai do trabalho, no  percurso até o carro  senti uma brisa forte. O percurso é sempre o momento em que ao mesmo tempo que agradeço por trabalhar tanto e estar inteira após mais um dia,  sempro penso que quando estava prestes a chegar a esse mundo alguém perdeu a minha ficha em que vinha escrito em letras garrafais “nascida para ser madame”(leia-se sustentada). Nessas horas, em que estamos profundamente cansadas, o lado feminista quase grita para ser Amélia, não a Earhart (aquela americana que adorava pilotar), mas a do Ataulfo Alves.  Mas, voltando ao momento brisa, aquele ventinho me fez tão feliz quanto o cheiro da terra molhada pela primeira  chuva ( que aguardo ansiosamente) . Em meio ao  cerrado árido, a esse tempo de seca, queimadas e sol escaldante, a noite estava fresca e me senti absurdamente grata, não pelo trabalho, mas pelas possibilidades. Pelo céu estrelado e pela lua. Não lamentei pela ficha perdida na fila de nascimento. Não desejei queimar sutiã , nem ser nenhum tipo de Amélia. Me permiti outra personagem.  Se o trabalho dignifica, não tem ninguém mais digna no mundo do que eu  e isso sempre me provoca risos. E me lembrei de uma amiga que em um dos meus momentos “lado bom das coisas”  disse: “Sai, Pollyanna, desse corpo que não te pertence”. Exorcismo que também me provoca risos. Ontem à noite, ao sentir aquela brisa, deixei a Pollyanna permanecer. Porque viver também é aquele percurso que fazemos entre um ponto nascer e outro ponto morrer, sempre a nos perguntar o que devemos sentir e como devemos agir? Se devemos exercitar a alegria ,  a tristeza, o medo ou a coragem. Quando caminhava até o carro, me permiti apenas a sensação de estar viva, porque é ter a consciência do viver que me faz sentir a brisa, o cheiro de terra molhada, que me faz saber que é setembro, aquele tempo de flores  e porque não ser brega, flores também na existência de qualquer ser humano. Eu me permito sim, jogar  o jogo do contente e dizer: fica por aqui, Pollyanna, esse corpo te pertence sim.

"As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter
nascido"  Fernando Pessoa

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Amigos e o apesar de


Estava aqui pensando nas pessoas que passaram pela minha vida, nos meus amigos. Essa nossa família que escolhemos por opção. Ela, às vezes,  também decepciona, mas ainda não existe lei que oficialize a ex-união, o ex-amigo, por isso temos que carregá-lo inteiro ou aos pedaços, como parte do que somos.

Amigos são pessoas que levamos por toda vida, mesmo quando deixam de ser amigos, mesmo quando crescem e deixam de ser aquela pessoa super bacana, para virar aquele ser que desconhecemos e que se tornou insuportável ( será que o pensamento é recíproco?). Alguns amamos tanto ou nos sentimos tão responsáveis pela existência que nos permitimos a desculpa do “apesar de”.

Como existem vários niveis de amizade ( o da intimidade, o da fofoca, o da diversão...) uns passam do primeiro nivel para o  “sei lá qual” . Outros vão crescendo de conceito até conquistar uma estrela, um diploma na parede. Mas, não importa. Em algum momento, essas pessoas foram o centro da nossa vida gravitacional ou vice-versa. Giramos em torno delas, ou elas , em torno de nós. Será sadio? Sei lá, talvez por isso estejam nesse nivel de nome tão esquisito. Talvez, como paixão e amor, a amizade também tenha seu momento paixão, aquele que passa e que às vezes vira amor, às vezes não. Amizade também é se permitir.

Os verdadeiros amigos são os que nos suportam e não desistem de nós. Que não vêem em nós a rabugice do tempo. Contraditório não? Talvez, porque pelo pouco que conheçamos de nós mesmos achamos, na nossa modéstia, que valemos a pena seja em qualquer nivel.

Se vivemos na mesma cidade ou em cidades diferentes, não importa, a distância não chega a nenhum ano-luz. O amigo de verdade é aquele que passado dez anos sem dar o ar da graça, faz com que o momento do reencontro tenha  sempre aquele ar de “não foi ontem que nos vimos?”. Temos sempre a mesma idade, o mesmo sonho, a mesma sintonia. Não existe tempo, porque nada que importa realmente mudou. Não tem ruguinha de expressão, ruguinha de idade, ruguinha de nada e muito menos rusgas. Existe a amizade da opção.

Outros amigos se perdem de nossas vidas mesmo morando na casa ao lado. A eles, eu sempre serei grata, porque me ajudaram a crescer e a ser o que sou, ou seja, um ser a ser adjetivado (fique a vontade). Sumiram. Casaram. Mudaram. Brigaram. Se foram de alguma forma. Outros fizeram apenas da solidão um refúgio e não um sentido de vida.

E é pelo tempo que temos nessa vida que levamos os amigos, estejam eles inteiros ou aos pedaços. São eles, o sentido do encontro com  nós mesmos. Representam o apesar de, o tempo que não passa, a vida que não envelhece, a alma sempre jovem e às vezes tão criança. E é a eles que  nos permitimos sempre abrir os braços e dizer  que bom que você existe, que bom que você é minha família, que bom que você é meu amigo. Eu sou Ana e me permito ter escolhas e amigos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A gentileza de Helena Bortone

Heleninha Bortone  nos deixou há dois anos. Era junho. Mas, acredito que as pessoas ao representarem algo, nesta nossa existência, vivem para sempre. No caso dela, isso acontece  toda vez que recebo uma gentileza ou  me "lembro"de ser gentil. Por favor, com licença e muito obrigada, palavras mágicas, dizia um professora. Para mim a grande mestra foi Heleninha, ou melhor, a tia Leninha . Naquele junho, o mundo com certeza perdeu um pouco de sua mágica.

“Gentileza gera gentileza”. Quem teve a oportunidade de receber de Heleninha Bortone essa mensagem do profeta Gentileza junto a um pequeno imã  como recordação de um desses finais de ano, sabe a essência  do que ela É. Helena Bortone é sinônimo de suavidade. Crianças e adultos tinham lugar na sua vida. Ela já foi a “Tia Leninha”, uma espécie de Xuxa anterior ao tempo em que se tornou moda fazer programas para crianças e onde conteúdo e respeito davam o tom. Atualmente, o seu espaço era a arte. Hoje ,ela se tornou um espaço dentro de nós, incluindo ouvintes. E que privilégio, para surpresa de muitos,  o espaço não está vazio, ele é cheio de tudo de bom. Aliás, Heleninha  é parte de nós. Helena Bortone vai sempre me fazer lembrar a grande responsabilidade que temos com o outro. Perceber o outro, cuidar do outro, respeitar o outro.  Nessa velha/nova empresa precisamos aprender com ela e trazer essa lição para dentro dos corredores, salas e até para o solitário elevador. O mundo fica um pouco menos gentil sem Heleninha Bortone, cabe a nós fazê-lo melhor pelo simples motivo de tê-la conhecido. A você Heleninha só me cabe agradecer, principalmente por me lembrar sempre que:  “gentileza gera gentileza”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

É só uma chuva....

Nada como um dia após um outro e uma noite no meio. Sempre ouço alguém dizer isso quando tudo fica difícil e a vida parece  não ter  saída. Permita-se. Em tempo de seca e umidade baixa percebi que se a noite é necessária ao dia, a chuva é necessária para que se floresça. Casamento desfeito, amizade perdida, emprego faltando? É chuva! O cara que não liga, o filho que não estuda e a relação que não anda? É chuva! As coisas se refazem, se encontram, se percebem. As pessoas crescem e supreendem e a fila sempre anda. Permita-se. É só uma chuva e o verde e as flores já  vão  chegar. Um lindo dia.
Eu sou Ana e  com certeza, eu me permito.

Nem Estatal, nem Público - A experiência de ser Maria

Em 1982, não se discutia o Estatal, o Público ou o do Público. Essas não eram questões que dominavam nosso cotidiano, muito menos o meu, então aluna do curso de jornalismo e  recém-contratada como estagiária. Era outro século e me parece, outra vida.

A máquina Olivetti, o carbono, o telefone, a caneta, o papel, o telex eram ferramentas essenciais para nós. O mundo globalizado, como o conhecemos, começava a dar os primeiros passos. Foi nesse contexto que fui apresentada a  Radiobrás, mais precisamente a Rádio Nacional AM de Brasília e ao Viva Maria.

"Viva Maria, 120 minutos de informação e descontração, onde você homem também tem a sua vez. ", dizia a apresentadora.   De segunda-feira a sábado, de 10h ao meio-dia, o programa fornecia informações que iam "da viagem de Sarney à Itália, a denúncia de mortes no trânsito", como cita uma reportagem do Correio Braziliense de 13 de junho de 1986,sobre radialistas da cidade.

Foi ali, no Viva Maria,  que ouvi pela primeira vez a expressão “gillete press”. Mas, tive muita sorte em começar na produção radiofônica, em um programa que confirmava a vocação pública do rádio, capitaneado pela jornalista Mara Régia,dona da voz e autora da vinheta.  O programa surgiu como idéia no “ calor da ditadura”,  como diz Mara, e  “representou a resistência da vontade do fazer”. Em uma época em que até a cor de roupa que se usava denotava uma rebeldia , dizer um viva às Marias foi um gesto de coragem.

O rádio ou “a rádia”, como vi escrito em várias cartas falava para  Marias e o Josés sobre cidadania. Foi ali, em uma redação no primeiro andar de um prédio público que aprendi várias lições, entre elas, que o espaço para falar do artista da novela, do novo sucesso do cantor da vez, deve ser apenas o chamariz para se dizer ao ouvinte o que realmente importa. Não é esse o papel do rádio? Falar e ser ouvido?

Para Mara Régia, as donas-de-casas, empregadas domésticas, mulheres necessitadas e sem rosto, eram prioridade. Durante quase cinco anos do programa,  tive a grata experiência  do novo naquele pequeno núcleo de resistência. O formato ousado para a época , vejo e ouço hoje repetido em outras emissoras. Está na TV, no  Rádio. Todos, fórmulas de sucesso com inúmeros anunciantes.

O Viva Maria teve momentos de luta ao abrir o microfone para os movimentos de mulheres que se fortaleceram com a criação do Fórum de Mulheres do DF. Duas vezes por semana, a “mulherada” se reunia no auditório da empresa. além disso, fez campanha por amamentação, pela infância e juventude e fez o lobby do Baton  na Constituinte.

Em pleno periodo de redemocratização do país, o viva Maria encampou lutas, como  pela  criação da primeira delegacia de Atendimento da Mulher da capital federal, desencadeada pelo Caso Tais,estudante morta a facadas no Campus da Universidade de Brasília, em 1987, e cujo namorado Marcelo Bauer  foi apontado como principal suspeito.

Durante dez anos, o Viva Maria ofereceu aos ouvintes, uma programação de qualidade mesclada ao popular.  Elitista para alguns, mas na realidade pública, porque era “destinada ao povo”,como devem ser todos os que que têm o poder de dar voz a todos e não apenas ao "dono da voz".

De perguntar a quem tem um radinho como único contato com o mundo: você sabia que é um cidadão e que por isso merece conhecer tudo o que existe de bom? Seja  MPB, música erudita, instrumental ou ritmos regionais? Como saber a preferência musical de um ribeirinho ou um engenheiro? Como saber se gostamos de algo  se nunca o  experimentamos?

Naquela época, ministros não nos davam entrevista, mas as Marias e Josés nunca foram impedidos de falar. Eles pertenciam a movimentos negros, associações de donas-de-casa, sindicato dos empregados domésticos e muitos outros.  A constatação? Sim, havia um exercício sincero, diário e comprovado de cidadania na empresa, já nos idos dos anos oitenta.

Em 1989, fui para o  radiojornalismo. Alguns governos depois, várias orientações distintas, algumas extremamente "chapa-branca", outras mais coerentes, digito essas palavras em um computador, salvo no meu pen drive. Onde estão a Olivetti, a fita de rolo, o telex? Estão ali, guardados no século XX. E onde está a cidadania? Está onde sempre esteve: nas ondas do rádio. No programa que reúne pessoas, no que denuncia, no que ouve autoridade e população. No conflito e na mediação.

Trabalho em uma emissora pública pelo direito à informação, que discute multimídias, digitalização, fusão, que caminha para um momento novo, na tentativa de não perder o foco no cidadão.  Exercício difícil de manter a balança com dois pesos iguais, nem sempre isento de falhas.

Novos ventos sopram em pleno século XXI. Ouvimos movimentos sociais, prós, contras, a direita, a esquerda e até mesmo os em cima do muro. Continuamos ouvindo Marias e  Josés.  Eles nunca perderam sua voz, porque está nas pessoas o sentido do que realmente fazemos.

Uma vez em uma carta ao Viva Maria, uma ouvinte agradeceu porque antes sentia vergonha do nome e,  naquele momento,  tinha orgulho dele. Ela se chamava Maria. Esse com certeza é o nosso mais eficiente medidor de audiência e, para mim, a melhor definição da comunicação que devemos fazer.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Madre Teresa ou Saddam, eis a questão.

É melhor destruir Torres ou construí-las? Dependendo do momento tem gente que escolhe a primeira opção. Acha o máximo a posição daquele maluquete querendo queimar livros e ter seus quinze minutos de fama. Se tivessse um avião então....SOCORRO. Tem pessoas que conseguem fazer da vida um 11 de setembro constante, mas não do lado das vítimas. O pior é que elas são o nosso 11 de setembro. Sempre prontas a destruir torres e não construí-las. E quem chamamos nessa hora?? O tal do livre arbítrio que não comanda a nossa vida, mas faz dela uma opção.

Na outra ponta está Madre Teresa. Ela nem sempre é de Calcutá. Nem tão beata, mas sempre pronta a oferecer o ombro e o colo. Um dom de agregar, reunir, que desperta inveja e que em algumas ocasiões faz quebrar a cara. Hello! Vamos chamar de novo, não o Lionel Richie, mas o tal de livre arbítrio.É mais difícil e não tão clichê construir torres. Isso requer muito trabalho. Destruir é tão fácil. Permita-se ser Madre Teresa, desde que não usurpe dela seu lugar na história. Seja história na vida dos seus amigos a quem um dia você já deu muito colo e ombro para chorar. Como diria a própria Madre Teresa:

“O que eu faço, é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor”