segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Onde me vejo

Há alguns anos, fiz  um desses cursos em que tentamos nos conhecer um pouco mais. Acredito que nem nós mesmos nos conhecemos profundamente. Também não nos conhece o companheiro, o terapeuta, o confessor, o guru, a mãe, o pai, o filho, o irmão ou o amigo. Na minha opinião, quem nos conhece de verdade é o nosso travesseiro, que sabe todos os nossos segredos, até aqueles que escondemos de nós mesmos, e que recolheu muitas de nossas lágrimas, de tristeza ou alegria. E o que é melhor, mesmo que brigue conosco, não vai nunca abrir a boca. Mas, sem o meu travesseiro, lá fui eu tentar descobrir o que eu era e acabei mesmo foi descobrindo o outro. Muito do que sou, vejo no outro. Muito do que digo, falo para o outro. Não me refiro ao outro que amamos ou  àquele que habita em nós, esse desconhecido que também fui procurar e que encontro aos poucos, dia após dia. Mas sim aquele outro, o outro-outro, que está ao nosso lado e percebemos ou ignoramos. Aquele com quem nos irritamos e, às vezes, chegamos a odiar. Estamos irritados ou odiando ao outro ou a nós mesmos? Aquele outro, que tem a mesma grama que a da nossa casa, mas que sem medo do lugar comum, tendemos a achar  sempre que é mais verde? Será que é influência da qualidade da água, do amor, das conquistas ou apenas do olhar que temos? Somos nós e somos eles. Me permitir me ver no outro é sempre a melhor parte. Aprendi a me ver no outro, com qualidades e defeitos, com a grama seca ou verde, com tempo bom ou ruim. Mais do que isso, me permiti  esse olhar. Uma boa lição. Todos os dias, tento exercitá-la um pouco, o que não faz de mim um ser humano melhor, mas que me ajuda a tentar ser. E quanto ao meu travesseiro? Coadjuvante ou protagonista, todos os dias ele também vai estar sempre lá.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Questão de vida

Uma amiga minha, mais do que querida, está em plena adolescência, embora tenhamos (ou quase) a mesma idade. Explico: um dia ela dormiu saudável e amanheceu doente. Uma doença chamada leucemia. Questão de morte? Não, de vida. Ela lutou algumas batalhas e venceu uma guerra inteira. Fé. Ela não adoeceu, para mim ela simplesmente “adolesceu”. Chance rara de perceber que se vivem várias vidas em uma e que estamos sempre recomeçando. Uma história a ser contada. Na semana passada, recebi uma notícia que deixou meu coração menor e me encheu de tristeza. Outra amiga, embora tenha travado várias batalhas, não conseguiu vencer uma guerra. Ela faleceu vítima de um câncer e se foi simplesmente. Questão de morte? Não, de vida. Porque vida é luta, mesmo quando se perde a guerra. Vejo a tragédia no Rio, na Austrália, no Haiti, as visíveis e invisíveis. As que podemos tocar e as intocáveis. Vejo, sobretudo, nossas tragédias pessoais, pequenas, grandes, significantes ou não. Vejo as pessoas “adolescendo " ou partindo. Tendo novas chances ou encerrando um ciclo. Sobrevivemos e isso é uma questão de vida. Viver é ir além do que nos permitimos. É não desistir de lutar, mesmo quando a sensação é de perda . Todos os dias temos uma segunda chance, às vezes, nem percebemos que estamos respirando.  Eu conheço muita gente que está morta e finge estar viva. Anda por aí que nem zumbi. Perdeu o brilho por não perceber a importância de se estar neste mundo de primeiras, segundas e últimas chances. Minha amiga adolescente vai soprar muitas velas e virar adulta, muito depois que eu já estiver  bem velhinha. Vida absoluta! Minha amiga que partiu, com seu jeito de falar sorrindo, também será sempre vida absoluta,como parte do que sou, do que faço, do sentimento de que existo, o que envolve  não só crescimento, mas  sofrimento. Acredito que não estamos neste mundo a passeio. Guerras vencidas ou perdidas, nelas estão sempre  a mesma questão: vida. E isso é se permitir.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Arriscar-se

Estava aqui pensando em mudanças, começos e recomeços. Há algum tempo li o livro “Comer, Rezar e Amar”, de Elizabeth Gilbert. Vi o filme também. Mas, nada é melhor do que manusear um livro, hábito quase esquecido na estante nos dias de hoje e que adoro. Com a leitura desse livro descobri que todo mundo tem, ou pelo menos deveria ter ,uma palavra. E descobri a minha : arriscar-se. A gente já começa nesse planeta se arriscando, ou seja, nascendo. Tem coisa mais arriscada do que enfrentar o mundo, depois do quentinho do ventre materno? Depois iniciamos nosso processo de crescimento. Com ele toda expectativa: os primeiros passos, tombos, escola, puxões de cabelo e beliscões, que às vezes, vêm de brinde com os primeiros coleguinhas, ou mesmo, com o irmãozinho, irmãzinha. Enfim, arriscamos e percebemos que começar a viver , às vezes, é doloroso, mesmo assim, seguimos em frente, nos arriscando diante do desconhecido. Porque viver também pode ser prazeroso. E o que mais ouvimos nessa fase da vida? Não! Estamos o tempo todo a nos arriscar, a testar nossos limites e a paciência dos pais. E vamos crescendo e descobrindo as coisas que existem : as positivas e negativas. Descobrimos que o amor existe, a amizade, a solidariedade, a superação e até mesmo, o perdão. Descobrimos outros sentimentos como o ciúme, a inveja, a ira. Enfim, Que os pecados capitais estão todos no cotidiano, mas quem disse que a redenção também não está? Alguns descobrem Deus, outros ainda O procuram, tem quem nem se dê ao trabalho e outros preferem mesmo é abraçar uma árvore. Que seja. Arriscar-se é a minha palavra predileta. Nem sempre sinônimo de coragem, às vezes, até de uma certa covardia e medo. Nessas horas, somos impulsionados por uma força, que pode até ser  a estranha da música, mas  que, certamente, nos leva a algum lugar. Ao crescer, nos arriscamos no trabalho, nas tarefas do dia a dia. Aprendemos a ouvir não com a sensação de déjà vu e, mesmo assim, arriscamos porque queremos que nos seja permitido. Neste ano que começa, desejo a você que se arrisque. Que transforme sonhos em realidade, que supere a negativa protetora ou desafiadora. Isso não quer dizer pular de um penhasco ( a não ser que você seja adepto de esportes radicais). Talvez seja necessário, apenas escalá-lo. Permita-se. Se você quiser, eu te empresto minha palavra.

Obs: Reparou quantos "não" a gente diz e escreve?