terça-feira, 26 de abril de 2011

Trilha sonora

O poder que tem os sons e os cheiros...  São neles que residem a minha máquina do tempo. Em um segundo, estou sentada na grama com um grupo de amigos e tenho 8, 12, 13, 15 anos. Estou no primeiro amor, no primeiro beijo, na primeira desilusão. Estou na primeira lembrança..  Posso ter todas as idades, reviver todas as vezes de um sim e todas, de um não. Em um minuto, posso estar de novo em um aeroporto vendo alguém partir ou chegar.  Estou escrevendo cartas, lendo livros, abraçando amigos,ouvindo sonhos e projetando os meus.  Chorando copiosamente com o coração partido.  Me vejo no primeiro ano da escola ou no  maternal. Estou olhando o mar pela primeira vez, tão destemida. Revivo momentos  e estou neles inteira.  E os vexames? Do passado que condena, a gente não escapa. Cheiros e sons são também são o meu ponto de vista da realidade que me cerca. Se me remetem à infância, lembro  de como tudo era imenso ao meu redor, porque eu era um ser tão pequeno. Fui crescendo e as coisas diminuindo. Elas começaram a ficar do tamanho  da inquietude e insegurança que  estão no pacote chamado crescer. O "ser pequeno" tomou outra conotação. Ouço uma música, sinto um cheiro e  me lembro das coisas que ficaram e estão lá . Som mágico que traz tudo de volta... Tenho de novo todos aqueles que não podem estar mais aqui. A vida de todo ser humano tem uma trilha sonora  perfumada. A do futuro, ainda é uma incognita. A do presente está sendo escolhida  com as realizações e frustrações que fazem parte do outro pacote  chamado ser gente.  Nesse exato momento, a minha é Bach ( Air Suite Nr. 3 ).
 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Quando a alma é tocada

Uma amiga minha escreveu em seu facebook “tive a alma tocada”. Confesso que achei muito lindo e fiquei imaginando em que momentos da vida isso acontece. O sentimento que tenho é de que se flutua, porque mesmo com todo o peso das coisas cotidianas ainda podemos ser leves. Em que percebemos que no mundo existem crianças e que elas precisam de nós; que o planeta está em crise e que podemos dar colo; que a natureza é  linda e podemos vê-la; que nem tudo é selva e se for, tem lá suas vantagens. Ter a alma tocada é sentir a presença de um anjo, da luz que nos protege, ou simplesmente do "eu" em que cremos. Por isso mesmo, acreditar que tudo nos move. É não se preocupar com o que pensam os outros, porque também pensamos sobre eles e, nesse momento, podemos sentir compaixão, perdão, amor. Ter a alma tocada é não ter vergonha de chorar vendo um filme, o noticiário, lendo um livro ou até mesmo, a bula de remédio. É viver todas as vidas em uma e não ter medo de recomeçar. Ter a alma tocada é sentir o que de mais humano existe em nós.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Primeira pessoa

Estava assistindo a  um desses inúmeros programas na televisão, quando  o entrevistado começou a falar de si mesmo na terceira pessoa. Pensei com os meus botões “outra alma perdida”. É sério, quando alguém começa a falar assim é um caso perdido, para não dizer um ser perdido entre a primeira e a terceira pessoa. Entre a fama e o anonimato. Quem sou eu? Quais os meu problemas? Os meus defeitos? São meus ou de um eu que é ele ou ela? Lembro de   uma amiga ter me chamado a atenção ( lição número mil) para o fato de  quando eu expressava uma opinião, às vezes, colocar o mundo na berlinda. Era um tal de “ nós seres humanos” para cá e para lá. Lógico que precisamos ser muitos e o coletivo cabe que é uma beleza.  Acredito que em alguns momentos eu também  precise de uma dose extra de autoestima para enfrentar determinadas situações. Nessas horas, o "se achar" não faz mal nenhum. Aprendi a me colocar no problema e a esquecer um pouco os outros que podiam ser até eu mesma. Aprendi a ser primeira pessoa absoluta de mim mesma, responsável pelos meus erros e meus acertos, consciente do livre arbítrio, das perdas e das vitórias. A consciência de ser um  eu que pode até machucar, mas que representa a essência  do que se é de verdade: primeira pessoa sempre.


domingo, 3 de abril de 2011

Metro e quadrado

Há muito tempo li  um livro de Ligya Fagundes Telles em que a personagem se  encontrava em seu metro quadrado.Em uma das passagens, ela era indagada sobre  as possibilidades do quarto deixar de ser dela, o perfume que  gostava não ter mais a essência preferida e sua torta predileta não ter mais o sabor da fruta predileta. Ela respondia dizendo que,em seu metro quadrado, as coisas sempre seriam suas, teriam o cheiro  e o gosto que adorava.  Quando li essa passagem confesso que valeu a livro, porque me fez refletir . Hoje lembrei desse trecho e percebi como esquecemos nossos sonhos para viver em quadrados. Cada um no seu. Claro que queremos nosso espaço respeitado, queremos respirar. Mas, tem muita diferença em você ter um metro quadrado, onde a vida é sua e do jeito que você quer e se viver em um quadrado de divisão, competição, de isolamento e até mesmo solidão. Sim, porque quando não nos permitimos pequenos passos para invadir o que pensamos ser do outro, também não nos permitimos arriscar, conquistar, amar. No meu metro quadrado  cabem os sonhos e as coisas são do meu jeito, no quadrado, às vezes, levanto muros  preocupada em protegê-lo do inimigo que pode ser o outro ou eu mesma, dependendo do momento. O quadrado é egoísta, o  meu metro é altruísta. Ter um mundo seu e compartilhar um mundo faz muita diferença, embora sejam iguais. Hoje lembrei do metro quadrado e esqueci do quadrado. Efeito consciência que torna todas as coisas uma, independente do tempo que durem.