quarta-feira, 24 de novembro de 2010

E se?...

"E se?"... Presente em todos os momentos. Nas certezas e incertezas, lá está ele a martelar nossa cabeça. "E se?" Olha ele de novo,  na fala de um filme, em um trecho de livro, na nossa existência. E se eu tivesse dito sim? E se eu tivesse dito não? E se eu tivesse saído com aquele cara? E se eu não tivesse saído?  E se eu tivesse aceitado aquela promoção? E se eu... Oportunidades, amores, amizades... Todos eles baseados no tal de "e  se...". Quando quebramos a cara e nos arrependemos, lá está ele firme e forte a nos angustiar. E se? E se? E se? E a gente insiste que se a opção fosse outra, a vida estaria um mar de rosas. O que sei, mesmo sem nada saber, é que se eu tivesse dito sim estaria me perguntado "e se" da mesma forma que se eu tivesse dito não. O "e se"  independe da opção. É um perseguidor daquelas coisas que queremos que sejam certas na nossa vida. Se algo muda, desvia do rumo, acontece como não sonhamos, precisamos de um culpado. Se recebemos uma crítica, um elogio mal construído nada mais perfeito que duas palavrinhas seguidas de um ponto bem grande de interrogação ou então de breves reticências.  "E se?". "E se...". Independente do nosso livre arbítrio o "e se" estará sempre a questionar nossas decisões. Tão nossas e tão erradamente acertadas. O "e se" é nosso arrependimento não assumido. Um arrependimento velado. Negar o "e se" é como negar que somos gente, planta, bicho ou seja lá o que você se sentir  nesse momento. A certeza é parceira do "e se?". Um não vive sem o outro, como o erro não vive sem o acerto e como nós não vivemos sem os dois.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A casa de Cora

Nesta semana, graças a paciência de dois amigos queridos, tive mais uma aula de como se colocam  portas, se levantam paredes, se constroem  pontes e como doces viram lembranças. Não estou fazendo  nenhum outro  curso, além daquele de me permitir viver.  Essa pequena aula eu tive em uma cidade conhecida por Goiás Velho, ao entrar por uma porta verde, em uma casa velha da ponte sobre um rio chamado Vermelho.  É que fui visitar Cora Coralina. A casa onde ela nasceu, viveu, partiu, retornou e partiu novamente. Pessoa linda, como tantas outras,cujas palavras me encantam. "Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema".  Aninha (sim seu nome era Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas), ou melhor Cora, me deixou visitá-la  e, por um momento, permitiu que sua casa real fosse um pouco minha. Como se colocam portas, se levantam paredes, se constroem  pontes? Saindo do aconchego do que  cremos ser verdadeiramente nossa casa e nos lançando pelo mundo para depois voltarmos para o que acreditamos ser nosso lar. Por isso, a importância de se aprender aos poucos o segredo da construção. Nosso lar pode ser em qualquer lugar. Nem sempre de onde saímos, mas com certeza, para onde retornamos. Quando respiramos um tempo que já passou, quando conhecemos de perto as opções de vida de pessoas tão iguais a nós no  existir, nos sentimos inspirados. Adoro Cora Coralina, porque na sua essência  humana, não teve medo de arriscar e começar, mesmo que tarde para alguns."Você acha que sou velha?" pergunta ela. Você era e é completamente jovem. "Tenho comigo todas as idades, estou vivendo o melhor tempo da minha vida....tempo em que tenho nada e que nada me falta...". Cora Coralina sabia que  nenhum bem material substitui o bem que se pode fazer com palavras, aprendidas também em um dicionário sempre sujo de melado. Não provei o doce de laranja  feito por ela, mas me permito saborear suas palavras toda vez  que a vida fica um pouco sombreada.  "Eu não digo nunca a palavra estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando esquecida, mais esquecida fica. Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então, silêncio!". Não precisa ir a Goiás Velho para estar na casa de Cora Coralina. Basta abrir um livro dela ou ler um texto onde quer que ele esteja. Ali, ao alcance dos olhos e das mãos,  está a  casa de Cora e é ali que aprendemos, um pouco, a abrir portas, ter paredes erguidas e atravessar pontes. A construir tudo isso, ainda estamos aprendendo, pelo menos no meu caso. 



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Grata pelo outro

Outro dia liguei para uma amiga minha para desejar Feliz Aniversário. Dessas amigas para quem eu ligo pelo menos uma vez por ano, que conheço desde a pré-história, mas que a vida levou por destinos diferentes. O incrível é que moramos na mesma cidade. Ao terminarmos nossa conversa ela disse “sou muito grata por você fazer parte da minha vida”. Gratidão mútua, que me deixou comovida. Não por ela ser uma dessas amigas que amamos sem nunca ver, porque em algum momento nos ajudou a sermos protagonistas da nossa existência, mas por ter esse sentimento de gratidão pelo outro. Ser grata pelo outro. Ser grata apenas pelo fato de que, em algum momento, o outro ter participado dessa pintura que é nossa vida. Obra de arte? Nem sempre. Às vezes, tão imperfeita que parece o contrário. Sem retoques, com manchas, sombras, luz e cor. Mas, com a contribuição desse outro que passou ou ficou, disse olá, adeus, te amo, te odeio, obrigada ou já vai tarde. De quem deu alegrias e também fez chorar. Ser grata pelo outro é permitir os altos e baixos. É admitir que nem tudo é fácil e que a graça reside aí. É abrir passagens para que  outros  outros venham e transformem nossa vida. Os antigos são sempre bem vindos. Ser grata ao outro é saber que existe alguém  que também nos ama sem ver,  porque fazemos ou fizermos parte de sua vida.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Desculpe por desejar bom dia

Outro dia estava atravessando a rua quando um senhor me disse “bom dia” para logo em seguida emendar, “desculpe, pensei que fosse outra pessoa”. O mundo anda tão caótico e as pessoas tão distantes uma das outras, que o fato de alguém se desculpar por desejar a você que o dia seja no mínimo razoável se transforma em um pedido de desculpa. Opssss, dei bom dia para a pessoa errada. E quem é afinal a pessoa certa? O conhecido ou o desconhecido? Estranho esse mundo. Acho que não deveríamos nos desculparmos por viver nele, nem por sermos educados e gentis. Não deveríamos ter vergonha de cumprimentar o outro, deveríamos ter vergonha de nós mesmos por não fazê-lo. Se a “tia” do maternal  nos visse agora, com certeza ficará chateada por termos esquecido lições tão básicas. O “bom dia” associado ao “com licença” e ao “muito obrigado” torna tudo um pouco melhor. Deixe-se confundir. Permita-se todos os dias se dirigir ao outro como se fosse um conhecido e lhe desejar um sonoro bom dia. Permita-se olhar ao redor. Seja educado com esse desconhecido chamado mundo e ele com certeza vai acabar retribuindo ao se tornar um lugar muito melhor. Ah, e antes que eu me esqueça: tenha um bom dia. Permita-se.