terça-feira, 21 de setembro de 2010

O lado Pollyanna e a brisa

 
Ontem à noite, quando sai do trabalho, no  percurso até o carro  senti uma brisa forte. O percurso é sempre o momento em que ao mesmo tempo que agradeço por trabalhar tanto e estar inteira após mais um dia,  sempro penso que quando estava prestes a chegar a esse mundo alguém perdeu a minha ficha em que vinha escrito em letras garrafais “nascida para ser madame”(leia-se sustentada). Nessas horas, em que estamos profundamente cansadas, o lado feminista quase grita para ser Amélia, não a Earhart (aquela americana que adorava pilotar), mas a do Ataulfo Alves.  Mas, voltando ao momento brisa, aquele ventinho me fez tão feliz quanto o cheiro da terra molhada pela primeira  chuva ( que aguardo ansiosamente) . Em meio ao  cerrado árido, a esse tempo de seca, queimadas e sol escaldante, a noite estava fresca e me senti absurdamente grata, não pelo trabalho, mas pelas possibilidades. Pelo céu estrelado e pela lua. Não lamentei pela ficha perdida na fila de nascimento. Não desejei queimar sutiã , nem ser nenhum tipo de Amélia. Me permiti outra personagem.  Se o trabalho dignifica, não tem ninguém mais digna no mundo do que eu  e isso sempre me provoca risos. E me lembrei de uma amiga que em um dos meus momentos “lado bom das coisas”  disse: “Sai, Pollyanna, desse corpo que não te pertence”. Exorcismo que também me provoca risos. Ontem à noite, ao sentir aquela brisa, deixei a Pollyanna permanecer. Porque viver também é aquele percurso que fazemos entre um ponto nascer e outro ponto morrer, sempre a nos perguntar o que devemos sentir e como devemos agir? Se devemos exercitar a alegria ,  a tristeza, o medo ou a coragem. Quando caminhava até o carro, me permiti apenas a sensação de estar viva, porque é ter a consciência do viver que me faz sentir a brisa, o cheiro de terra molhada, que me faz saber que é setembro, aquele tempo de flores  e porque não ser brega, flores também na existência de qualquer ser humano. Eu me permito sim, jogar  o jogo do contente e dizer: fica por aqui, Pollyanna, esse corpo te pertence sim.

"As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter
nascido"  Fernando Pessoa

5 comentários:

  1. É amiga, já a Polyanna aqui, hoje está querendo queimar não só os sutiãs, mas as calcinhas, vestidos, calças... E se na fogueira eu pudesse jogar algumas criaturas deste mundo, não seria nada mau. AFFFFF....
    Mas MANTENHA este seu sentimento. Ele é Maravilhoso! Ao fim desta semana eu certamente me lembrarei de como é :-)

    ResponderExcluir
  2. Polyanna,sai desse corpo que não te pertence!!! rsrsrsrs

    ResponderExcluir
  3. Aninha como sempre escreve como ninguém!!! Te admiro muito! E esse lado Polyanna faz muito bem a qualquer um... Bjs

    ResponderExcluir
  4. Ana... me identifiquei MUITO com esse texto! Aliás, muito bem escrito, parabéns.
    Tenho MUITO de Pollyanna - THANK´S GOD!!!!
    Se me permitires vou colocar no meu FB
    BJS

    ResponderExcluir