terça-feira, 26 de outubro de 2010

Polvo Paul e meu futuro

Morreu o polvo Paul. Repercussão total de pesar. Esse molusco marinho da classe Cephalopoda e da ordem Octopoda se tornou famoso por causa da Copa do Mundo. Oráculo. Acertava todas. A morte de Paul me fez pensar sobre futuro. Qual a graça de saber o futuro? A graça reside em se poder ganhar com ele por causa de um palpite acertado ou vivê-lo intensamente? Onde você estava há dez anos? Quais eram seus palpites? Ao andar para a esquerda ou para a direita parou na escolha certa? Houve uma época na minha vida que acreditava que segurança era não estar só. Em outro momento, um bom trabalho bastava. Direita, esquerda, meio. Palpites? Vários. Acertos? Alguns. Milhares de olhos ( no meu caso invisíveis) atentos às minhas escolhas. A família, os amigos da família, o conhecido da rua de cima, os desconhecidos... Um grupo e tanto de torcedores prós e contra. Ao refletir sobre Paul cheguei a uma conclusão: não sou um polvo em um aquário, mas sou um ser humano em constante exposição. Acima de tudo, sou o Oráculo de mim mesma, onde a probabilidade de erros e acertos são iguais. Errar ou acertar é  uma questão de se permitir.
Acho que vou mandar um telegrama para a  família de Paul.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sentar no chão e chorar

Não sei se você já sentiu aquela vontade de no meio de uma reunião, de uma edição de texto, de uma leitura de relatório, sentar no chão e chorar. Chorar mesmo,  como se fosse uma atriz de novela mexicana e tivesse perdido a pessoa mais querida do mundo. Nesses momentos, posso até correr o risco de perder o emprego, mas não estou perdendo ninguém. A única certeza que tenho é a de que estou recebendo uma visita. Que surpresa! Não é a TPM ( que pode ser pré, pós e durante). Quem chega é um cara que adora dizer “olá” de vez em quando chamado estresse. Conhece? Cara chato, mas inegavelmente um companheirão, que  tem o poder de me fazer sentar no chão e chorar. Sim, porque descabelada e com ar alucinado acho que já fico naturalmente com sua chegada.  Por isso, sempre tem aquela pessoa de bom coração que pergunta “ - tá tudo bem com você?”. Com certeza, já captou os primeiros sinais de insanidade e quer garantir que não vou atirar o celular, o grampeador  ou qualquer objeto nela. Pessoa simpática. Com certeza, o máximo que vai receber é um “tudo bem “ atravessado, mas, sem risco de vida. Sentar no chão e chorar. Depois, é só levantar e agir como se nada tivesse acontecido. Nariz vermelho? Pó nele! Quando sentir vontade, se permita. Eu atesto que sentar no chão e chorar dá tão certo como colocar uma vassoura atrás da porta quando recebemos visitas indesejáveis. Sabe aquele  amigão chato? Vai embora correndo da sua casa.  No meu caso, o já mais que chegado estresse.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Beijei um sapo.


Quantos sapos a gente não beija nessa nossa existência e quantos príncipes continuamos a esperar enquanto a ampulheta do tempo se esvai. Bonito, né? Mas, o sapo continua lá. Lembro que uma vez, em uma festa tinha um garoto lindo de morrer. De morrer mesmo, porque ele não podia sorrir porque faltava um dente. Tudo bem, defeito pequeno, fácil de consertar. Mas, eu não tinha tempo. Lembro também daquele liiiiiiiindo musculoso em sua moto e que um dia me aparece de bicicleta, sunga, camiseta regata, meia três quartos e chuteira. Pera aí? Ou ele nadava ou jogava futebol ou andava de bicicleta. E cadê a moto? Acho que foi em momentos como esses que constatei literalmente que as aparências enganam. E como. Não sei o que é pior, se sentir Cinderela ou querer ser ela lavando chão à espera do salvador. Haja escovão! Ou então ser Branca de Neve, morta em vida, à espera do beijo salvador. Vida engraçada essa de princesa, para não dizer sofrida. E viva a modernidade!. Se o tempo não pára, vamos correr com ele. O bom mesmo é acreditar e continuar tentando. Beijei um sapo e não me arrependo. Sapo era e sapo permaneceu. Com certeza, a sapa gêmea apareceu.

Chove

Chove.  A seca acabou, o verde voltou e a vida se lembra que é mesmo primavera. Alguns nem percebem a chuva, estão apressados , preocupados com a rotina, a política, a religião, a liquidação...São apenas pontos coloridos vistos do alto, de onde ela cai. Do profundo ao supérfluo estão todos  na mesma estação. Uns sofrem e outros amam. Amam o quentinho da cama, os pingos no rosto, o céu nublado e agradecem. Abençoados. Outros amam a água que cai na terra,  a plantação, a perspectiva de alimento na mesa e agradecem. Abençoados. A chuva pode ser  o aconchego ou a esperança, depende sempre do referencial. Pode ser a alegria ou a tragédia. Depende do momento, do lugar e do estar. Chove. Eu só posso agradecer por viver em um mundo em que a natureza se manifesta , hoje com alegria. Estou viva, diz ela. Você está?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Criança

Sinto saudades...
De todos os meus 12 de outubro e dos que ainda virão. Do privilégio de simplesmente ser. Da escola gigantesca para a visão do meu metro.   Dos presentes, brincadeiras, parquinhos, desenhos.. Sinto saudades do que vivi criança, da criança que sou e da que ainda  me permitirei ser. Sinto saudade do mundo cor-de-rosa e não globalizado.  Nessa brincadeira de esconde-esconde que é a vida, ainda bem  que  sei onde encontrá-la, principalmente no 12 de outubro. Dá licença, que vou  ver desenho.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um mais um

“Mãe sabe o que é o tempo? É um mais um , mais um, mais um, mais um”..... A pergunta, seguida da explicação, veio da minha filha quando ela tinha uns quatro anos. Um mais um. O tempo, como mexe com a gente, com o que somos e ainda vamos ser. Tenho uma colega que quer sempre ter vinte anos , outra se recusa tanto a mudar de idade  que já tive que ouvir coisas do tipo: nossa, se vocês estudaram juntas como ela consegue ser bem mais nova ? Só posso rir e responder: é superdotada! O medo de envelhecer, de que o um mais um chegue  de forma definitiva está sempre rondando. Creio que o tempo é uma dádiva, que com ele aprendemos,  quebramos a cara, mas estamos sempre caminhando, mesmo quando andamos em circulos somamos no um mais um. Viver um dia de cada vez é importante para mim. Sou viciada em viver e em tudo que vem junto, mas sei que um dia o meu relógio também vai parar. Enquanto isso estou no  um dia mais um dia. O verdadeiro relógio carrego dentro de mim. Não é aquele biológico, que marca o tempo em que devemos casar, ter filhos ou não , arrumar emprego, sair de casa, ser independente, acabar ou começar um relacionamento, conhecer o mundo, nos trancarmos no nosso mundo, querer colo ou não querer ninguém... . O meu relógio anda quando eu  permito, pára , adianta , me faz ser adolescente ou uma velha incorrigível. Se as marcas no rosto contam mesmo uma história, hoje em dia, com o botox, a plástica e os inúmeros tratamentos, ela está sempre querendo ser reinventada , reescrita, apagada. Mesmo assim, as marcas vão estar sempre ali como o menino e seus pregos (para quem não conhece, posso contar essa história) , mas a alma  estará sempre com a idade do tempo que nos permitirmos. Um mais um nem sempre são dois, mas para mim essa soma sempre será vida.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pausa

Quando era adolescente  fui assistir ao filme “ Irmão Sol, Irmão Lua”. São Francisco de Assis está mais na moda do que nunca e isso literalmente : ecológico e despojado, como diria uma amiga minha, direto da laje. Hoje, em um desses raros momentos em que nos permitimos pausas ( já dizia o poeta  que a vida precisa delas) pensei nessa pessoa que abre mão de tudo para seguir algo em que acredita. No caso, esse irmão Sol. Em que acreditamos hoje? No prêmio acumulado de 115 milhões de reais da Mega Sena? Que a mão coçando é presente na certa (como diz minha avó) ou uma micose (como vive dizendo minha filha)? Que o ideal é escalar pedras e se aventurar (convite de um filho destemido e natureba demais)? Como se despojar de roupas, de bens, como ter diante da vida uma atitude franciscana? Como sair do conforto do sofá velho e mudar? Como tirar essa segunda pele que gruda na gente e quanto mais o tempo passa, mais grudada ela fica com o nome de acomodação? Perguntas e mais perguntas. As pausas na vida são sempre reflexivas. E de repente alguém grita na redação. Aperto o play por algum tempo e depois volto a minha pausa, pois nela me encontro. No meu próprio céu, com sua lua e estrelas. No meu próprio sol, que ilumina quando a vida está tão difícil, que caímos no mais profundo do fundo do poço. Atitude! Coragem! É buscando nesse baú de memórias que percebo como é bom poder tentar tirar essa segunda pele. Como é bom poder lembrar do que um dia fomos e que ainda somos. Sou, na minha pausa, aquela adolescente encantada, sentada em uma sala de cinema vendo um história e pensando no que viria a seguir. O a seguir se foi , o cinema acabou, mas aquele momento ficou sem que eu nem percebesse. Me lembrei hoje, talvez porque seja  4 de outubro , de que  não somos santos e eu precise da lembrança  que,  apesar de  não sermos perfeitos,ainda podemos sê-lo. Acho que é uma questão de tentar e  se permitir. E olha que a minha pausa durou menos de dez minutos.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Fernando pessoa

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Perdas e achados

O pai de uma amiga  acaba de morrer. Dor imensa. E isso me remeteu  a todas as perdas que sofremos e do que elas nos fazem achar/encontrar. Foi na perda do meu pai, por exemplo, que achei o amor profundo que sentia por ele e que estava escondido em algum lugar. Foi enquanto  ele lutava contra um câncer, que eu descobri que o que eu acreditava serem defeitos eram  na realidade, as grandes qualidades. Um achado na minha perda. E ao longo de minha vida, assim como da sua ou de qualquer outra pessoa, a sucessão de perdas e achados são enormes. Não é um “achado e perdido” comum. Não é algo que se perde e se encontra com facilidade. Que alguém acha e devolve. Não existe uma sala ou um retorno pelo caminho para se encontrar. Não se pode olhar o chão, não é uma chave, mas é a chave. Não se recicla, mas, às vezes, é preciso revirar o lixo e mesmo assim, encontrar força para olhar para frente. Pelo menos, é assim que  penso. Muitas vezes, é algo que apenas está escondido sob a forma de raiva, impaciência, mágoa ou incompreensão. Sempre ganhamos algo nas nossas perdas. Às vezes, passamos a vida inteira tentando encontrar ou encontramos e nem percebemos. A fé é um dos maiores achados nas minhas perdas. É o que me move e me faz ter esperança. E esse é um achar que me permito não perder. E espero que esse achar esteja presente na vida dessa amiga querida.

“Eu parto com o ar – sacudo minha neve branca ao sol que foge
Desfaço minha carne em redemoinhos de espuma,
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que amo;
Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus pés.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo;
Não obstante serei para ti boa saúde
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se não conseguires encontrar-me, não desanimes;
O que não está numa parte esta noutra
Em algum lugar estarei a tua espera “
Walt Whitman