terça-feira, 28 de setembro de 2010

Escolhas

Pensava sobre escolhas e quanto tempo elas refletem em nossa vida. Duram para sempre? São passageiras? Têm o ciclo de um mandato? Mandam na nossa existência? Colocam comida na nossa mesa? Nos tornam mais atraentes? Nos fazem mais feios? Mais tristes? Mais penalizados com o que somos? Ah, as escolhas. Não me arrependo de nenhuma. Aprendi com todas elas, até naqueles momentos em que simplesmente desistimos no último segundo. Se viver fosse fácil, acho que seria tão sem graça. Se as escolhas fossem sempre acertadas, também. É a chamada dor do crescimento, às vezes, dói só nos joelhos (segundo relato de uma amiga a quem vou dar um voto de confiança), outras, no corpo inteiro. Estamos todos os dias em tempo e momento de escolhas e de lamentos. Aquela pessoa que não beijei. Aquele emprego que não aceitei. Aquela história que não escrevi . Aquele momento que não me permiti. Escolhas. Estava aqui pensando sobre elas: as certas e as erradas que fazemos por aqui. Da política a vida pessoal .Às vezes, se as coisas não dão certo, Deus costuma ser responsabilizado. Bom, pelo menos no meu caso, porque conheço gente que adora abraçar árvores e que quando algo dá errado, culpa mesmo é a pobre da natureza porque é nela que acredita.. Sim ou não. Esse caminho ou aquele. Escolhas. Permita-se fazê-las e tenha uma lindo dia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ela chegou

 

Hoje recebi uma visita que gosta de ser itinerante. Ela não fica só na minha casa. Está em vários lugares ao mesmo tempo, com sua cara florida e ar de piquenique. Como consegue? Fonte de inspiração constante.De Vivaldi a Tchaikovsky passando por Beto Guedes e Tim Maia, ela cabe em todos os ritmos. Como consegue ser tão linda? Sempre critico  os excessos e nela, ah nela,  tudo é absolutamente excessivo, a começar pelas cores. Só que nesse caso, não cabe crítica. Ela pode abusar do batom vermelho e da sombra azul. Quem se importa? Por enquanto, essa minha e sua prima está por aqui, para  lembrar que, às vezes,  se chega também de mala e flores. Talvez por isso, seja tempo de se permitir florescer. A Primavera chegou hoje aos nove minutos. Seja bem vinda. Até dezembro, quando chegar aquele  cara quente, a gente se renova.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O lado Pollyanna e a brisa

 
Ontem à noite, quando sai do trabalho, no  percurso até o carro  senti uma brisa forte. O percurso é sempre o momento em que ao mesmo tempo que agradeço por trabalhar tanto e estar inteira após mais um dia,  sempro penso que quando estava prestes a chegar a esse mundo alguém perdeu a minha ficha em que vinha escrito em letras garrafais “nascida para ser madame”(leia-se sustentada). Nessas horas, em que estamos profundamente cansadas, o lado feminista quase grita para ser Amélia, não a Earhart (aquela americana que adorava pilotar), mas a do Ataulfo Alves.  Mas, voltando ao momento brisa, aquele ventinho me fez tão feliz quanto o cheiro da terra molhada pela primeira  chuva ( que aguardo ansiosamente) . Em meio ao  cerrado árido, a esse tempo de seca, queimadas e sol escaldante, a noite estava fresca e me senti absurdamente grata, não pelo trabalho, mas pelas possibilidades. Pelo céu estrelado e pela lua. Não lamentei pela ficha perdida na fila de nascimento. Não desejei queimar sutiã , nem ser nenhum tipo de Amélia. Me permiti outra personagem.  Se o trabalho dignifica, não tem ninguém mais digna no mundo do que eu  e isso sempre me provoca risos. E me lembrei de uma amiga que em um dos meus momentos “lado bom das coisas”  disse: “Sai, Pollyanna, desse corpo que não te pertence”. Exorcismo que também me provoca risos. Ontem à noite, ao sentir aquela brisa, deixei a Pollyanna permanecer. Porque viver também é aquele percurso que fazemos entre um ponto nascer e outro ponto morrer, sempre a nos perguntar o que devemos sentir e como devemos agir? Se devemos exercitar a alegria ,  a tristeza, o medo ou a coragem. Quando caminhava até o carro, me permiti apenas a sensação de estar viva, porque é ter a consciência do viver que me faz sentir a brisa, o cheiro de terra molhada, que me faz saber que é setembro, aquele tempo de flores  e porque não ser brega, flores também na existência de qualquer ser humano. Eu me permito sim, jogar  o jogo do contente e dizer: fica por aqui, Pollyanna, esse corpo te pertence sim.

"As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter
nascido"  Fernando Pessoa

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Amigos e o apesar de


Estava aqui pensando nas pessoas que passaram pela minha vida, nos meus amigos. Essa nossa família que escolhemos por opção. Ela, às vezes,  também decepciona, mas ainda não existe lei que oficialize a ex-união, o ex-amigo, por isso temos que carregá-lo inteiro ou aos pedaços, como parte do que somos.

Amigos são pessoas que levamos por toda vida, mesmo quando deixam de ser amigos, mesmo quando crescem e deixam de ser aquela pessoa super bacana, para virar aquele ser que desconhecemos e que se tornou insuportável ( será que o pensamento é recíproco?). Alguns amamos tanto ou nos sentimos tão responsáveis pela existência que nos permitimos a desculpa do “apesar de”.

Como existem vários niveis de amizade ( o da intimidade, o da fofoca, o da diversão...) uns passam do primeiro nivel para o  “sei lá qual” . Outros vão crescendo de conceito até conquistar uma estrela, um diploma na parede. Mas, não importa. Em algum momento, essas pessoas foram o centro da nossa vida gravitacional ou vice-versa. Giramos em torno delas, ou elas , em torno de nós. Será sadio? Sei lá, talvez por isso estejam nesse nivel de nome tão esquisito. Talvez, como paixão e amor, a amizade também tenha seu momento paixão, aquele que passa e que às vezes vira amor, às vezes não. Amizade também é se permitir.

Os verdadeiros amigos são os que nos suportam e não desistem de nós. Que não vêem em nós a rabugice do tempo. Contraditório não? Talvez, porque pelo pouco que conheçamos de nós mesmos achamos, na nossa modéstia, que valemos a pena seja em qualquer nivel.

Se vivemos na mesma cidade ou em cidades diferentes, não importa, a distância não chega a nenhum ano-luz. O amigo de verdade é aquele que passado dez anos sem dar o ar da graça, faz com que o momento do reencontro tenha  sempre aquele ar de “não foi ontem que nos vimos?”. Temos sempre a mesma idade, o mesmo sonho, a mesma sintonia. Não existe tempo, porque nada que importa realmente mudou. Não tem ruguinha de expressão, ruguinha de idade, ruguinha de nada e muito menos rusgas. Existe a amizade da opção.

Outros amigos se perdem de nossas vidas mesmo morando na casa ao lado. A eles, eu sempre serei grata, porque me ajudaram a crescer e a ser o que sou, ou seja, um ser a ser adjetivado (fique a vontade). Sumiram. Casaram. Mudaram. Brigaram. Se foram de alguma forma. Outros fizeram apenas da solidão um refúgio e não um sentido de vida.

E é pelo tempo que temos nessa vida que levamos os amigos, estejam eles inteiros ou aos pedaços. São eles, o sentido do encontro com  nós mesmos. Representam o apesar de, o tempo que não passa, a vida que não envelhece, a alma sempre jovem e às vezes tão criança. E é a eles que  nos permitimos sempre abrir os braços e dizer  que bom que você existe, que bom que você é minha família, que bom que você é meu amigo. Eu sou Ana e me permito ter escolhas e amigos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A gentileza de Helena Bortone

Heleninha Bortone  nos deixou há dois anos. Era junho. Mas, acredito que as pessoas ao representarem algo, nesta nossa existência, vivem para sempre. No caso dela, isso acontece  toda vez que recebo uma gentileza ou  me "lembro"de ser gentil. Por favor, com licença e muito obrigada, palavras mágicas, dizia um professora. Para mim a grande mestra foi Heleninha, ou melhor, a tia Leninha . Naquele junho, o mundo com certeza perdeu um pouco de sua mágica.

“Gentileza gera gentileza”. Quem teve a oportunidade de receber de Heleninha Bortone essa mensagem do profeta Gentileza junto a um pequeno imã  como recordação de um desses finais de ano, sabe a essência  do que ela É. Helena Bortone é sinônimo de suavidade. Crianças e adultos tinham lugar na sua vida. Ela já foi a “Tia Leninha”, uma espécie de Xuxa anterior ao tempo em que se tornou moda fazer programas para crianças e onde conteúdo e respeito davam o tom. Atualmente, o seu espaço era a arte. Hoje ,ela se tornou um espaço dentro de nós, incluindo ouvintes. E que privilégio, para surpresa de muitos,  o espaço não está vazio, ele é cheio de tudo de bom. Aliás, Heleninha  é parte de nós. Helena Bortone vai sempre me fazer lembrar a grande responsabilidade que temos com o outro. Perceber o outro, cuidar do outro, respeitar o outro.  Nessa velha/nova empresa precisamos aprender com ela e trazer essa lição para dentro dos corredores, salas e até para o solitário elevador. O mundo fica um pouco menos gentil sem Heleninha Bortone, cabe a nós fazê-lo melhor pelo simples motivo de tê-la conhecido. A você Heleninha só me cabe agradecer, principalmente por me lembrar sempre que:  “gentileza gera gentileza”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

É só uma chuva....

Nada como um dia após um outro e uma noite no meio. Sempre ouço alguém dizer isso quando tudo fica difícil e a vida parece  não ter  saída. Permita-se. Em tempo de seca e umidade baixa percebi que se a noite é necessária ao dia, a chuva é necessária para que se floresça. Casamento desfeito, amizade perdida, emprego faltando? É chuva! O cara que não liga, o filho que não estuda e a relação que não anda? É chuva! As coisas se refazem, se encontram, se percebem. As pessoas crescem e supreendem e a fila sempre anda. Permita-se. É só uma chuva e o verde e as flores já  vão  chegar. Um lindo dia.
Eu sou Ana e  com certeza, eu me permito.

Nem Estatal, nem Público - A experiência de ser Maria

Em 1982, não se discutia o Estatal, o Público ou o do Público. Essas não eram questões que dominavam nosso cotidiano, muito menos o meu, então aluna do curso de jornalismo e  recém-contratada como estagiária. Era outro século e me parece, outra vida.

A máquina Olivetti, o carbono, o telefone, a caneta, o papel, o telex eram ferramentas essenciais para nós. O mundo globalizado, como o conhecemos, começava a dar os primeiros passos. Foi nesse contexto que fui apresentada a  Radiobrás, mais precisamente a Rádio Nacional AM de Brasília e ao Viva Maria.

"Viva Maria, 120 minutos de informação e descontração, onde você homem também tem a sua vez. ", dizia a apresentadora.   De segunda-feira a sábado, de 10h ao meio-dia, o programa fornecia informações que iam "da viagem de Sarney à Itália, a denúncia de mortes no trânsito", como cita uma reportagem do Correio Braziliense de 13 de junho de 1986,sobre radialistas da cidade.

Foi ali, no Viva Maria,  que ouvi pela primeira vez a expressão “gillete press”. Mas, tive muita sorte em começar na produção radiofônica, em um programa que confirmava a vocação pública do rádio, capitaneado pela jornalista Mara Régia,dona da voz e autora da vinheta.  O programa surgiu como idéia no “ calor da ditadura”,  como diz Mara, e  “representou a resistência da vontade do fazer”. Em uma época em que até a cor de roupa que se usava denotava uma rebeldia , dizer um viva às Marias foi um gesto de coragem.

O rádio ou “a rádia”, como vi escrito em várias cartas falava para  Marias e o Josés sobre cidadania. Foi ali, em uma redação no primeiro andar de um prédio público que aprendi várias lições, entre elas, que o espaço para falar do artista da novela, do novo sucesso do cantor da vez, deve ser apenas o chamariz para se dizer ao ouvinte o que realmente importa. Não é esse o papel do rádio? Falar e ser ouvido?

Para Mara Régia, as donas-de-casas, empregadas domésticas, mulheres necessitadas e sem rosto, eram prioridade. Durante quase cinco anos do programa,  tive a grata experiência  do novo naquele pequeno núcleo de resistência. O formato ousado para a época , vejo e ouço hoje repetido em outras emissoras. Está na TV, no  Rádio. Todos, fórmulas de sucesso com inúmeros anunciantes.

O Viva Maria teve momentos de luta ao abrir o microfone para os movimentos de mulheres que se fortaleceram com a criação do Fórum de Mulheres do DF. Duas vezes por semana, a “mulherada” se reunia no auditório da empresa. além disso, fez campanha por amamentação, pela infância e juventude e fez o lobby do Baton  na Constituinte.

Em pleno periodo de redemocratização do país, o viva Maria encampou lutas, como  pela  criação da primeira delegacia de Atendimento da Mulher da capital federal, desencadeada pelo Caso Tais,estudante morta a facadas no Campus da Universidade de Brasília, em 1987, e cujo namorado Marcelo Bauer  foi apontado como principal suspeito.

Durante dez anos, o Viva Maria ofereceu aos ouvintes, uma programação de qualidade mesclada ao popular.  Elitista para alguns, mas na realidade pública, porque era “destinada ao povo”,como devem ser todos os que que têm o poder de dar voz a todos e não apenas ao "dono da voz".

De perguntar a quem tem um radinho como único contato com o mundo: você sabia que é um cidadão e que por isso merece conhecer tudo o que existe de bom? Seja  MPB, música erudita, instrumental ou ritmos regionais? Como saber a preferência musical de um ribeirinho ou um engenheiro? Como saber se gostamos de algo  se nunca o  experimentamos?

Naquela época, ministros não nos davam entrevista, mas as Marias e Josés nunca foram impedidos de falar. Eles pertenciam a movimentos negros, associações de donas-de-casa, sindicato dos empregados domésticos e muitos outros.  A constatação? Sim, havia um exercício sincero, diário e comprovado de cidadania na empresa, já nos idos dos anos oitenta.

Em 1989, fui para o  radiojornalismo. Alguns governos depois, várias orientações distintas, algumas extremamente "chapa-branca", outras mais coerentes, digito essas palavras em um computador, salvo no meu pen drive. Onde estão a Olivetti, a fita de rolo, o telex? Estão ali, guardados no século XX. E onde está a cidadania? Está onde sempre esteve: nas ondas do rádio. No programa que reúne pessoas, no que denuncia, no que ouve autoridade e população. No conflito e na mediação.

Trabalho em uma emissora pública pelo direito à informação, que discute multimídias, digitalização, fusão, que caminha para um momento novo, na tentativa de não perder o foco no cidadão.  Exercício difícil de manter a balança com dois pesos iguais, nem sempre isento de falhas.

Novos ventos sopram em pleno século XXI. Ouvimos movimentos sociais, prós, contras, a direita, a esquerda e até mesmo os em cima do muro. Continuamos ouvindo Marias e  Josés.  Eles nunca perderam sua voz, porque está nas pessoas o sentido do que realmente fazemos.

Uma vez em uma carta ao Viva Maria, uma ouvinte agradeceu porque antes sentia vergonha do nome e,  naquele momento,  tinha orgulho dele. Ela se chamava Maria. Esse com certeza é o nosso mais eficiente medidor de audiência e, para mim, a melhor definição da comunicação que devemos fazer.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Madre Teresa ou Saddam, eis a questão.

É melhor destruir Torres ou construí-las? Dependendo do momento tem gente que escolhe a primeira opção. Acha o máximo a posição daquele maluquete querendo queimar livros e ter seus quinze minutos de fama. Se tivessse um avião então....SOCORRO. Tem pessoas que conseguem fazer da vida um 11 de setembro constante, mas não do lado das vítimas. O pior é que elas são o nosso 11 de setembro. Sempre prontas a destruir torres e não construí-las. E quem chamamos nessa hora?? O tal do livre arbítrio que não comanda a nossa vida, mas faz dela uma opção.

Na outra ponta está Madre Teresa. Ela nem sempre é de Calcutá. Nem tão beata, mas sempre pronta a oferecer o ombro e o colo. Um dom de agregar, reunir, que desperta inveja e que em algumas ocasiões faz quebrar a cara. Hello! Vamos chamar de novo, não o Lionel Richie, mas o tal de livre arbítrio.É mais difícil e não tão clichê construir torres. Isso requer muito trabalho. Destruir é tão fácil. Permita-se ser Madre Teresa, desde que não usurpe dela seu lugar na história. Seja história na vida dos seus amigos a quem um dia você já deu muito colo e ombro para chorar. Como diria a própria Madre Teresa:

“O que eu faço, é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor”